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O Novo Carro Esportivo Britânico: Wells Vertige
O mercado de carros esportivos sempre foi um campo de batalha entre inovação radical e tradição nostálgica. Nos últimos anos, vimos a ascensão de máquinas eletrificadas de torque instantâneo e sistemas de direção cada vez mais artificiais. No entanto, em um nicho específico, um movimento contrário está ganhando força: o renascimento do carro esportivo leve, purista e analógico.
Um dos expoentes mais intrigantes desse movimento é o Wells Vertige, um projeto de engenharia britânica que busca resgatar a essência da condução esportiva “à moda antiga” para um público que sente saudades dos Lotus Elise e Alpine A110 clássicos. Mas será que essa máquina artesanal, vendida por cerca de R$ 460.000, entrega o que promete?
O Wells Vertige não é apenas um carro esportivo bonito; é uma declaração de intenções. Desenvolvido em segredo desde 2014 pelo empresário Robin Wells, e com a colaboração do consultor de engenharia Robin Hall desde 2016, o Vertige foi revelado no Goodwood Festival of Speed em 2021 e entregue aos seus primeiros clientes em 2022. Agora, com a primeira série de 25 carros “Founder’s Edition” já nas mãos dos proprietários, a Wells Motor Cars está expandindo sua produção com o modelo R, que chega com ainda mais potência e personalidade.
Este artigo é um mergulho profundo no Wells Vertige, uma análise completa de seu design, motorização, desempenho e, o mais importante, do que ele representa no cenário automotivo atual.
Design e Estilo: Um Abraço Britânico de Luz e Proporção
O primeiro impacto ao ver o Wells Vertige é sua silhueta clássica e atemporal. Com apenas 3.944 mm de comprimento, ele é comparável em tamanho a um Triumph TR6 e notavelmente mais curto que seu principal concorrente moderno, o Alpine A110. Sua largura e distância entre eixos são próximas às do rival francês, o que lhe confere uma postura excepcionalmente atlética.
A filosofia de design, segundo Wells, priorizou o estilo sobre a ergonomia. As portas de abertura de tesoura (dihedral doors) são um espetáculo à parte, proporcionando uma entrada majestosa, embora desafiadora para motoristas mais altos. O carro é notavelmente estreito, com apenas 1.770 mm de largura (sem retrovisores), e sua altura de apenas 1.142 mm reforça a sensação de estar em um carro de corrida de rua.
A carroceria é construída em fibra de vidro reforçada com Kevlar, montada sobre um chassi de aço estampado cortado a laser e subestruturas trianguladas. Um destaque interessante é o sistema de abastecimento: em vez de um único tanque, o Vertige possui enchedor em ambos os lados, remetendo ao clássico Jaguar XJ12. Wells afirma que a rigidez torsional do chassi é de cerca de 40.000 Nm por grau, um valor impressionante, comparável ao de um BMW M3 de geração F80.
A distribuição de peso, 39:61 (frente:traseira), é ligeiramente mais rear-biased para um esportivo de motor central, mas dentro do esperado. Caso a Wells Motors cumpra seus planos de oferecer um diferencial de torque limitável Quaife e um motor de 2.5 litros, essa característica tende a se acentuar ainda mais.
Interior: Um Santuário de Couro e Madeira com Pequenas Frustrações
Ao adentrar o Wells Vertige, a sensação é de estar em um cockpit de luxo, mas com claras limitações de espaço. Robin Wells admite abertamente que a concepção inicial do carro privilegiou o visual e as proporções. Para motoristas acima de 1,80m, o espaço é apertado, com apenas 910 mm de espaço para as pernas e 940 mm de altura livre para a cabeça. Para se ter uma ideia, o Alpine A110 oferece 1.080 mm e 990 mm, respectivamente.
No entanto, para motoristas de estatura menor, o habitáculo é envolvente e confortável. O alto túnel central e a visibilidade desimpedida sobre o painel flocado e as asas dianteiras esculpidas fazem o motorista se sentir não apenas operando uma máquina, mas integrando-se a ela. A visibilidade traseira também é excelente, mitigando a necessidade de uma câmera de ré (embora o carro a possua).
A experiência tátil é uma das maiores virtudes do Vertige. O volante de couro macio e o seletor de marchas de madeira virada oferecem uma sensação premium e um engate mecânico satisfatório. O design prioriza componentes analógicos, mantendo o foco no motorista.
No entanto, a justaposição entre materiais luxuosos, como o couro bordado dos encostos de cabeça e os acabamentos em madeira, e o sistema de som de terceiros (Sony) “double-DIN” pode ser um pouco dissonante. Em projetos de baixo volume, é comum que a eletrônica padrão seja uma das áreas mais visivelmente limitadas. O sistema Sony oferece conectividade Apple CarPlay e Android Auto, e há dois pontos de recarga USB-C, cobrindo as necessidades básicas de infotainment.
O armazenamento é outro ponto positivo: apesar do cockpit apertado, o Vertige possui compartimentos generosos na frente e atrás, colocando-o em uma posição surpreendentemente favorável em comparação com um Maserati MC20 em termos de capacidade de bagagem.
Motorização e Desempenho: O Coração V8 Britânico Modernizado
O Wells Vertige é impulsionado por um motor Ford Duratec de 2.0 litros em linha, acoplado a uma caixa manual de seis marchas da Ford e um diferencial aberto. Inicialmente disponível com 208 cv, a versão standard recebeu um aumento de potência para 225 cv, enquanto a versão R eleva esse número para 247 cv, graças a componentes internos modificados e uma nova calibração eletrônica.
Apesar da configuração de motor central, a nota do escape é um dos grandes atrativos do carro. O sistema de exaustão polido é visível, e ao remover a tampa do motor, é possível observar o uso de uma ECU Emerald K6 e borboletas de admissão duplas que conferem ao Vertige seu considerável volume sonoro.
Dinâmica de Pilotagem: Puro Sucesso Britânico
A dirigibilidade do Wells Vertige é um dos seus maiores trunfos, combinando a sensibilidade dos carros clássicos britânicos com o controle moderno. Ele não oferece a precisão cirúrgica de um Porsche Cayman ou a resposta ultrarrápida de um Alpine A110. Em vez disso, o Vertige prioriza o engajamento e o caráter do motorista.
A suspensão dianteira e traseira utiliza wishbones duplos de alumínio fundido e é totalmente ajustável (altura do rodado, cambagem e alinhamento). O controle é feito por amortecedores Spax com 24 cliques de ajuste manual, acessíveis sem necessidade de ferramentas especiais.
No quesito conforto, o carro surpreende positivamente. Com rodas de 17 polegadas e pneus de perfil relativamente alto, o Vertige oferece um passeio comparável, ou até superior, ao do Alpine A110. Embora não seja imune a imperfeições do asfalto, ele se comporta de forma suave em viagens e estradas sinuosas, recompensando o motorista com uma conexão íntima com a topografia da estrada.
Em pistas, o Vertige mostra sua verdadeira vocação. É possível ajustá-lo para obter um equilíbrio perfeito e segurança no ápice das curvas, aproveitando o baixo peso do carro. A falta de um diferencial de deslizamento limitado (LSD) não incomoda para saídas rápidas, mas um LSD aumentaria ainda mais o dinamismo geral.
Economia e Custo de Propriedade: Um Luxo Acessível?
Robin Wells garante que o Wells Vertige pode ser mantido em qualquer oficina competente, o que é plausível considerando a simplicidade mecânica do motor Duratec e da caixa de câmbio Ford. Os freios e pneus são de linha, proporcionando durabilidade e disponibilidade de peças.
No entanto, a garantia de fábrica de um ano é um ponto fraco em comparação com as expectativas para um carro de £75.000 (aproximadamente R$ 460.000). Wells está trabalhando para estender essa cobertura no futuro.
Comparado a rivais de marcas maiores e com produção em massa, como o Porsche 718 Cayman ou o Mazda MX-5 (ambos disponíveis também no mercado brasileiro), o Vertige parece caro. No entanto, ao compará-lo com carros esportivos artesanais e de nicho, como os propostos por marcas como AC Cars ou Ginetta, o Vertige se mostra consideravelmente mais acessível.
Em termos de consumo, o carro entrega economia onde é mais importante. Espera-se cerca de 34 mpg (cerca de 14 km/l) em uso misto e mais de 45